Rosto magro, encovado, olhar azulado, penetrante, deslizando harmoniosamente por um longo nariz aquilino bem desenhado, enterrando-se na barba hirsuta, acinzentada, compunham o rosto daquele homem.
Usava por vezes um blusão desbotado, que em tempos teria sido azul; outras um velho e folgado oleado, roçando-lhe a calça puída de ganga, a fazer inveja aos mais novos. Uma bóina enorme, descambando para a direita, cobria-lhe a cabeça, onde o cabelo ralo, esbranquiçado, se confundia com o espesso hirsutismo da barba.
Vivia pobremente e chamavam-lhe o Talassa. Não se lhe conhecia o nome, (se é que existia), nem idade, nem família, nem proveniência, nem sequer onde vivia, embora constasse que numa furna ali para os lados da Canada das Dutras, um lugarejo ermo e solitário nos arredores da cidade da Horta, em que do alto se disfrutava a bela Baía.
Havia ainda quem afirmasse, que numa atafona nas cercanias de Santa Bárbara.
Tudo meras suposições, porque ao certo nada se sabia. Igualmente da forma como viera ali parar. Que era um "sãomiguel", chegado a desoras sem se saber quando e como. Talvez um estranja, já que a sua fala era arrastada e esquisita, mas nada que se comparasse com os autóctones da "ilha verde", de outra ilha ou de outro lugar qualquer.
A verdade é que ninguém sabia o que quer que fosse sobre aquela criatura.
Raramente falava. Não se lhe conheciam amigos ou companhias, para além de um velho e abocanhado cachimbo com o fornilho gasto transandando permanentemente a tabaco da terra, que se acendia em dias de recolhimento e mau tempo, ajudando na meditação que o envolvia, sempre olhando o mar, talvez tentando trespassá-lo na distância ou descodificando a mensagem do seu berro colérico trepando por toda aquela costa.
Ocupava-se geralmente na pesca. Uns caniços de cana da Índia, um pequeno cesto de vimes, encardido e esfarelado, ajudavam-no no deglutir do tempo e a viver em paz.
Nas escassas conversas com que raramente se abria, impressionava quem quer que fosse, quer pela fluência, pela lucidez, pelos imensos conhecimentos de cultura e de vivência que escondidamente albergava.
Os pescadores que com ele se cruzavam, eram unânimes e costumavam sempre dizer que o homem não regulava bem da cabeça. Falava e misturava as coisas, coisas que não entendiam: "Patagónias" Novas Ébridas", "Mistrais", "Sirius", "Golfstrems"...Mas do que não tinham dúvida é de que o homem não tivera vida fácil.
Para muitos era o tripulante de algum barco, foragido à brutalidade da vida. Para outros um aventureiro como tantos, cansado da vida nas grandes urbes, procurando refúgio no remanso da pequena cidade.
Durante largo tempo inventaram-se histórias à sua volta, das mais tenebrosas às mais bizarras: que arribara a nado à Ilha, vindo de um submatino afundado ao largo da ilha do Pico, sendo ele o único sobrevivente.
Que fora um espião sobrevivido a impiedosa caçada na Segunda Guerra Mundial; primeiro ter-se-ia albergado em S. Miguel; depois no Faial, ilha longe das bocas do mundo, mais escondida, pequena e sossegada.
Chegara mesmo a dizer-se, que o homem nem sequer comia. Ninguém o vira nunca mexer com a boca, a não ser para beber, mas só beber água.
O certo, é que ninguém conseguira arrancar uma palavra sobre a sua identidade e origem.
Ao fim de um tempo, o homem, embora parecendo estranho, fora aceite na comunidade.
Era um excêntrico, disso não havia dúvida, mas não incomodava ninguiém.Volta não volta, ganhava uma ou outra soldada, fazendo parte das companhas, nos barcos de boca aberta, que varavam ali por perto no cais de Santa Cruz. E caso curioso, é que era um óptimo pescador. Dizia-se até que dava sorte, na embarcação em que ia. Por isso mesmo, era muito disputado, quando, o que raramente acontecia, se dispunha ir à faina.
Raramente falava, quando pescava pelo alto, mas as linhas iam e vinham com perícia, quase sempre carregadas de peixe do fundo, inundadas pela desavinda fumaça, do sebento e velho cachimbo.
O Talassa, aí sim, era extremamente respeitado. Iscava e aferrava como ninguém. Mesmo aparentando os seus sessenta e muitos anos, dava "calças" em quem quer que fosse. O mais experimentado ou jovem, que se atrevesse...
Tornara-se com o correr dos tempos, uma figura típica da baía.
Os olhos azulados, postos no mar e na ponta da ponteira de osso de cachalote, vendo fundos que ninguém via...
O surgir de um peixe, volta não volta, que ele delicadamente retirava do anzol, e que na maioria das vezes devolvia ao mar...
E quando lhe perguntavam porque o fazia, respondia num sorriso, sempre a mesma frase: " Oh! Muito jovem. Precisa viver..."
Era por essa e por outras, que não o entendiam.
Certa vez na doca, aferrara um pargo enorme. Seguira-se tremenda luta em que o infeliz fora finalmente vencido.
Quando tudo parecia calmo e terminado, o Talassa com enorme dificuldade, conseguira retirar-lhe do anzol, e perante a estupefacção dos que o rodeavam, lançara o enorme peixe pesadamente no mar.
O bicho ainda se ficou a boiar por uns instantes como que agradecendo-lhe a inusitada generosidade e depois desapareceu nas profundezas para nunca mais voltar.
Quando lhe perguntaram porque fizera, respondera simplesmente a sorrir: "Oh! Muito velho. Precisa descansar..."
Mas toda a comunidade devia-lhe respeito. Salvara de morte certa, duas pessoas queridas no burgo: uma na flor da idade, um jovem de dez anos, que caira ao mar e ficara entalado entre a muralha e um barco.
O Talassa atirara-se ao mar, e com risco da própria vida, conseguira, entre gritos e expectativas dos que angustiados assistiam, trazer de volta o rapaz, que para além do susto, pouco mais sofrera.
Ele é que esmagara um dedo, entre a mutralha e o casco do navio, inutilizando-o para sempre; mas o rapaz salvara-se.
Noutra ocasião, na costa do Pasteleiro, com vento e mar forte de sudoeste, uma pequena embarcação revirara, e o seu único e solitário ocupante ficara à mercê de um mar brutal e encapelado, que estoirava nas pedras ponteagudas de basalto.
Em terra todos assistiam ao desenlace sem que nada pudessem fazer.
O Talassa então pedira uma corda, que enrolara em redor da cintura, e perante a estufepfacção de todos, atirou-se ao mar. Ninguém lhe vaticinava a mínma sorte de regresso.
Muitas foram as vezes que desaparecera entre as pedras e o encapelamento das ondas. Mas chegou ao naugfrago e arrastou-o miraculosamente para terra, ainda com vida.
Recusara então honrarias, inclusive uma proposta do Município, para ser agraciado em cerimónia pública, alegando que "não fizera mais do que era a sua obrigação".
Era mesmo um homem doido aquele Talassa, ninguém disso tinha dúvida, mas era terrivelmente respeitado, principalmente na orla marítima. E falar do Talassa, era falar de um ser silencioso, um amigo, capaz de tudo, para salvar quem quer que dele precisasse.
E, em coisas de mar, não havia discussões: ele sabia tudo. Só que o seu grande defeito, era mesmo ter conversas que ninguém entendia...
Naquela noite, o Talassa fora à pesca na "Rebolona", uma lancha de boca aberta, de duas proas, rumeira e segura como uma prancha, que fazia o Canal, da Areia Larga à Espalamaca em três quartos de hora, a meia força.
A noite fora fraca. Talvez umas duas caixas de abróteas "gázeas", dois ou três chernes médios e já "bonzinhos", e mais umas miudezas de pouca valia.
As águas do Canal estavam corridas, marés vivas tocadas de vento, o que complicava quando se ia p'ra vazante". E uma lua que não dava para nada.
Mas o Vaidoca, outro excelente pescador de família e tradição, morado ali no bairro das Pedreiras, insistira com ele. Era a família a pedir o sustento, não olhando a luas.
E o Talassa mesmo sabendo que era tempo perdido, não lhe recusara a intenção e o pedido.
Fora mais um dia de "senão", cheio de "mormaço", daqueles em que o Talassa se recolhia. Porque quando estava mais expansivo, o que era raro, sempre dizia a gracejar, no seu "dialecto arrevesado", que mesmo assim sempre se entendia: "Eu sei onde está peixe. Ele chama por mim. É só por isco no boca e pronto..." Na verdade, bem lá no íntimo, o Talassa não gostava nem um pouco de assistir ao agonizar do "bicho", muito menos presenciar-lhe o execrando estertor da morte.
Normalmente a fondura era tanta a que pescavam, que o peixe vinha das profundezas, silencioso, inanimado, já morto, "bucho" rebentado, vísceras inchadas, devido à subita mudança de pressão, sem ser preciso sequer puxar, entregando-se sem resistência à mão do seu "algoz".
Assim, tudo se tornava bem mais fácil. Mas matá-lo a frio, enquanto tristemente se debatia, apenas para sacar um pouco mais de oxigénio, que lhe retivesse a vida por mais uns míseros segundos, numa luta desigual e despótica?
Não! Isso não era coisa para ele, embora, uma ou outra vez tivesse de recorrer contrafeito ao fatal golpe de misericórdia , algo que sempre o incomodava e entristecia.
Era a inevitabilidade da vida e das coisas, numa cadeia hierarquizada de necessidades, ditando a sorte dos mais fracos.
Já os ilhéus da Madalena iam ficando para trás e o amplo casario da Horta surgindo pela frente, a trepar a colina do "Monte Carneiro" e emoldurando a imensa baía, quais braços eternamente abertos, sempre prontos a receber algum cansado viandante -, a Ponta da Espalamaca, o Monte Queimado e a Guia -, e a encimá-los lá no fundo, destacando-se do verde ubérrimo dos recantos da ilha- , o cimo da Caldeira.
Aqui e ali surgiam agora as coníferas, araucárias tão velhas e tão pobres quanto Job, "conhecenças" marítimas de outras eras, tempos recuados, em que a pequena cidade fora grande, e as velas, a única forma de atravessar os oceanos e ligar os continentes e as gentes.
E o casario ia agora crescendo a cada pulsar do embolo do pequeno "Perkins" a gasóleo.
Quatro vasos de guerra, uma pequena esquadra, surtava na quietude da baía. Eram ingleses. Reconheciam-se na distância, pelo tarjar rubro, no azul marinho dos pavilhões, abanando meigamente, como singelas caudas de rafeiros, abandonados e vadios.
O Vaidoca, de cigarrilho torcido no canto da boca, apagado e babado, lançou a fala a medo:
- P'ra que diabo fazem estas gentes navios de guerra?! P´ra matá?!
O "Talassa" olhava de entre todos o maior, e, lá por entre dentes, tartamudeou para consigo: "H.M.S. Victory"...
O outro nada entendeu, e voltou à fala, enquanto a "Rebolona", airosa e roliça, ia rondando a popa do navio.
- Merda! - exclamou o "Vaidoca".
E gastam dinheiramas com essas porcarias...
O Talassa continuava mudo e absorto que nem um tordo, olhando vagamente a marujada, que no convés, se aprestava para dar um salto à terra.
O "Vaidoca" era um homem que falava pelos cotovelos. E logo continuou na sua "lenga-lenga".
- São ingleses?!
O outro acenou ligeiramente a cabeça.
- Uns sacanas, tal como os holandeses, os franceses e outros...E dizem-se aliados, há centos de anos, e têem andado a "mamar" o que era nosso e que descobrimos por esses mares fora...
Minha filha é que me vai contando estas coisas. Por mim sou um triste que nem sequer sabe o que é uma letra...O que eu levei das mãos de minha mãe que Deus já lá tem e do professor Afonso...
Mas o que me lixava era mesmo a tabuada.
O Talassa retirou lentamente o cachimbo da boca, olhou com um sorriso o Vaidoca, e monossilabou qualquer coisa, que lhe pareceu um "tens razão" e continuou a olhar a paisagem que se alongava pela frente: o casario alvo, abraçando a baía e a doca a crescer por vante; e o redondo da ponta a apoitar-se a poucos metros, encimado pelo pequeno farol, que relampejava ao cair da noite, sempre pronto a dar as "boas noites", e as "boas vindas" a quem por ela entrasse, mesmo àquela hora tardia da manhã.
Instantes volvidos, já a "Rebolona" se atracava ao cais de Santa Cruz.
O peixe era pouco, mas tinha de passar pela lota.
O Talassa foi o primeiro a saltar em terra. Chicote do cabo na mão, deu-lhe num segundo um "ás de guia", e enterrou-o no cabeço mais próximo.
Ainda o Vaidoca não apanhara a caixa para encher o peixe, já o Talassa , se punha em movimento, num rápido acenar de mão, não dizendo, nem esperando mais nada.
"Então?! E a soldada?! E o quinhão a que tinha direito e lhe pertencia?!"
O que fazer com gente assim?!
É verdade que tinham apanhado pouco peixe, mas o homem tinha lá os seus direitos...
Era por essa e por outras, que se diziam coisas e loisas daquele homem.
"Seria que não comia mesmo?"
O Talassa alto, curvado, cabelo e barba desfraldados ao vento, ia no seu passo certo e cadenciado do costume, atravessando o Largo Dr. Manuel de Arriaga.
A marujem, chegada a cada instante, espalhava-se pelas ruas, e ia "conspurcando" tascas, cafés e lupanares da beira-mar.
O café "Sport" mais conhecido por "Peter", estava a abarrotar de fardas e de "Yes´s".
À porta, alguns oficiais iam trocando as impressões do costume, aquelas de quem há muito não punha os pés em terra: o tempo, a viagem, as belezas da ilha...
O "Talassa" passava agora pelo passeio, lado oposto ao do café, onde mal medravam umas azáleas "raquíticas", em boa hora postas pela mão de um vereador mais atento, "zeloso" e amante da natureza, reminiscências salvas, ao acaso e à revelia, dos muitos e vandalescos pés, desavindos da noite, comandados pelo famoso gin do Peter, e sem querer, deu-lhe um espreitadela para a porta.
Um dos oficiais, fixou-lhe o olhar cinzento de mar e, acto contínuo, chamou o dono do café e perguntou-lhe de forma cortês, se conhecia aquele homem.
"Que sim", viera de pronto a resposta.
Era um "fisherman"; um pobre homem, que vivia por ali de uns biscates, na pesca e na faina da baía.
O oficial continuou a seguir com os olhos o corpo esguio e bamboleante do Talassa, até perder-se no cimo da rua, isto enquanto a vista pôde, e depois quedou-se pensativo, a olhar no vácuo, abstracto, como que medindo as fímbrias de um passado já longe, mas ainda suficientemente fresco para ser sepultado.
Não! Podia lá ser...O homem que aquele velho lhe fazia recordar.
Esse era quase uma lenda. Um tal McGrover. Um irlandês que chegara ao topo do Almirantado Britânico. Uma personagem que era ainda recordada e falada "à boca-miuda" pelos corredores...
Dizia-se que entrara jovem para a "Navy". A sua ascensão fora meteórica. Depois de passar pela aviação naval, comandara diversas unidades, entrando depois pela porta principal, dos sinuosos e difíceis acessos ao Almirantado.
Aí, e em pouco tempo, galgara o topo. Fora o grande estratega da Segunda Guerra Mundial: da Batalha do Atlântico; da luta anti-submarina. E de todas as estratégias de mar. A ele se deviam as grandes nuances, que haviam permitido que a vitória pendesse para o lado dos aliados.
Uma personalidade verdadeiramente lendária, incrível, que desaparecera misteriosamente sem deixar rasto, já nos finais de guerra.
Dizia-se que fora assassinado às mãos da Gestape, já que, exceptuando talvez o Primeiro Ministro Winston Churchill, era a pessoa mais odiada e de maior urgência a abater; que teria desaparecido numa missão altamente secreta, missão essa que nunca fora divulgada, e que se encontrava ainda em segredo de estado, que teria corrido mal, aventando-se até a hipotese de ter sido traído por infiltrações do eixo.
A verosimilhança ou a inversimilhança dessa e de outras histórias, passados já tantos anos, continuavam ainda vivas pelos corredores do Almirantado.
Um dos oficiais reparara que o Comandante do "H.M.S. Victory" continuava olhando o cimo da rua, absorto, num vácuo demorado, imprevisível, e num rasgo de solidariedade arriscou:
- Anything wrong, Sir?!
- No. Thath´s all right! - veio de pronto a resposta.
Mas o comandante da esquadra, o Comodoro Humphry Hill, um velho e rijo lobo do mar, não estava satisfeito e continuava visivelmente impressionado.
" Um homem daqueles, vivo e numa ilhota: na pequena ilha do Faial? Uma ilha no "cabo do mundo?" Podia lá ser...E já passara tanto tempo...Não. O McGrover fora mesmo liquidado pelos "boches".
Uma personalidade daquelas poderia lá permanecer viva ou escondida por tanto tempo...
Quantos milhares, senão milhões de vidas, não tinha ele no seu "curriculum?...Podia lá ser...
Aquele era apenas um pobre pescador: velho e vagabundo, nada mais..."
Mais à frente o Talassa parou.
Olhava agora a esquadra no meio da Baía, espelhada pelos primeiros raios de sol, popas a leste sobressaindo do alvo casario e soerguendo-se do sopé da montanha, que esvaindo-se das cores ainda vivas da manhã, afugentadas pelo sol ainda frio, trepavam para além da fronteira.
Os olhos viscosos do "Talassa", beberam lentamente aquele quadro; fixaram-se demoradamente nos pavilhões; desceram pelas correntes retesadas; foram ao mar, onde vários "lifeboats" pincelados de branco, iam e vinham, trazendo a marujada, e acabaram caindo ali a dois passos fixos no mar.
Duas lágrimas por engano, escorreram dos olhos cansados e foram anichar-se nas frondas da barba esbranquiçada.
Depois deu meia volta e as pernas começaram a mexer-se lentamemte e a levá-lo para algum sítio; um sítio perto ou longe, que ninguém mesmo conhecia.
Conto extraído do livro "Errâncias de Pedra e de Sal" de HUMBERTO MOURAED. do autor 1998
QUANDO AS LETRAS SÃO IMAGENS
terça-feira, 16 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
"SINAIS DE INFINITO" NOVO LIVRO DE HUMBERTO MOURA
(...) Mantendo o seu habitual "low profile", de autor humanista que olha o mundo com insaciável curiosidade, Humberto Moura continua a aguentar o rumo da escrita, num percurso literário cujo universo temático consubstancia à sua volta a distância e a ausência, a solidão e o tempo, o amor e o sonho, a vida e a morte no registo mais sentido de uma escrita pessoalíssima e profundamente humana.
Obra de discutidas ideias e interpretação das mesmas, este é uma espécie de romance tese que evoca e questiona as mitologias do século XX e princípios do século XXI, desmistificando aspectos ligados às civilizações, religiões, culturas, ciências, políticas, poderes, filosofias...Acima de tudo há aqui uma séria reflexão sobre a globalização e sobre os destinos da Humanidade. Porque afinal de contas, o homem é o grande predador de si e da própria Humanidade - esta a grande linha de força deste romance marcado pela ironia, metonimia e sinédoque, e caracterizado por uma boa fluência narrativa numa articulação feliz entre os discursos directo e indirecto, a descrição, o diálogo e o monólogo interior. A realidade é, neste livro, bem observada e a observação bem exprimida. Isto é, clareza na escrita e transparência nas ideias. À boa maneira queirosiana.
Victor Rui Dores
Obra de discutidas ideias e interpretação das mesmas, este é uma espécie de romance tese que evoca e questiona as mitologias do século XX e princípios do século XXI, desmistificando aspectos ligados às civilizações, religiões, culturas, ciências, políticas, poderes, filosofias...Acima de tudo há aqui uma séria reflexão sobre a globalização e sobre os destinos da Humanidade. Porque afinal de contas, o homem é o grande predador de si e da própria Humanidade - esta a grande linha de força deste romance marcado pela ironia, metonimia e sinédoque, e caracterizado por uma boa fluência narrativa numa articulação feliz entre os discursos directo e indirecto, a descrição, o diálogo e o monólogo interior. A realidade é, neste livro, bem observada e a observação bem exprimida. Isto é, clareza na escrita e transparência nas ideias. À boa maneira queirosiana.
Victor Rui Dores
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Mais umas linhas do Livro "Sismo na Madrugada"
(...)"Ela que o tratasse bem, como se fosse ele próprio" - dissera Quevedo de lágrimas nos olhos. - "Ele salvara-lhe a vida, mais do que uma vez..."
"Que ficasse descansado. O cão "São Telmo" era a pessoa de família que ela já não tinha e a companhia de que precisava.
Não! Não queria dinheiro! Porque ele ia necessitar dele."
O pior foi ter de amarrar o "São Telmo".
Quevedo vacilara. As mãos tremiam-lhe.
"Não. Não podia levá-lo".
Salvara-lhe D. Dolores.
O animal entendera e gania num pranto doloroso, tentando alcançá-lo com as enormes patas dianteiras, uma das quais o próprio Quevedo tratara com todo o carinho.
E Quevedo saíra porta fora, estarrecido e esfrangalhado, mas mesmo assim ainda conseguira murmurar:
"Hei-de voltar..."
E durante algum tempo foi dolorosamente ouvindo o "soluçar" do bicho, que se transformara num esmaecido ladrar, num gemido repassado de melancolia, até que a distância foi paulatinamente engolindo.
"Aquela mulher e aquele cão haviam representado muito para ele: ela, a mãe que perdera e voltava de novo a perder. O cão, algo que não possuíra na infância, talvez o amor de um pai que nunca aceitara ou quisera reconhecer..."
"Que ficasse descansado. O cão "São Telmo" era a pessoa de família que ela já não tinha e a companhia de que precisava.
Não! Não queria dinheiro! Porque ele ia necessitar dele."
O pior foi ter de amarrar o "São Telmo".
Quevedo vacilara. As mãos tremiam-lhe.
"Não. Não podia levá-lo".
Salvara-lhe D. Dolores.
O animal entendera e gania num pranto doloroso, tentando alcançá-lo com as enormes patas dianteiras, uma das quais o próprio Quevedo tratara com todo o carinho.
E Quevedo saíra porta fora, estarrecido e esfrangalhado, mas mesmo assim ainda conseguira murmurar:
"Hei-de voltar..."
E durante algum tempo foi dolorosamente ouvindo o "soluçar" do bicho, que se transformara num esmaecido ladrar, num gemido repassado de melancolia, até que a distância foi paulatinamente engolindo.
"Aquela mulher e aquele cão haviam representado muito para ele: ela, a mãe que perdera e voltava de novo a perder. O cão, algo que não possuíra na infância, talvez o amor de um pai que nunca aceitara ou quisera reconhecer..."
quarta-feira, 11 de março de 2009
Umas linhas de "Sismo na Madrugada"
(...)Mas afinal e melhor pensando, Lisboa já não era a mesma. Algo mudara ou lhe estava faltando. Talvez o doce convívio dos amigos: os amigos daquele tempo.
Mas o "Palladium" continuava aberto e sendo o velho ponto de encontro da malta açoriana, só que agora não encontrara nenhum rosto que lhe parecesse do seu tempo.Apenas os criados de mesa, lhe dispensaram um grande carinho e alvoroçado abraço: não o haviam esquecido.
E vieram as perguntas: " O senhor Doutor por cá?! Como está o senhor Doutor? É para ficar ou de passagem, senhor Doutor?"
"Senhor Doutor para cá; senhor Doutor para lá..."
O Quental como sempre e quando se indignava, largara um tremendo berro:
"Parem-me com essa porra de "Doutor"! Vocês já se esqueceram do Quental?! Do teso do Quental, que pedia cigarros e beatas a vocês?!
E arrebentara numa tonitruante gargalhada, uma rebentina a que toda a criadagem aderira, de principio receosa e acagaçada, mas depois ruidosa e álacre de alegria...
Mas o "Palladium" continuava aberto e sendo o velho ponto de encontro da malta açoriana, só que agora não encontrara nenhum rosto que lhe parecesse do seu tempo.Apenas os criados de mesa, lhe dispensaram um grande carinho e alvoroçado abraço: não o haviam esquecido.
E vieram as perguntas: " O senhor Doutor por cá?! Como está o senhor Doutor? É para ficar ou de passagem, senhor Doutor?"
"Senhor Doutor para cá; senhor Doutor para lá..."
O Quental como sempre e quando se indignava, largara um tremendo berro:
"Parem-me com essa porra de "Doutor"! Vocês já se esqueceram do Quental?! Do teso do Quental, que pedia cigarros e beatas a vocês?!
E arrebentara numa tonitruante gargalhada, uma rebentina a que toda a criadagem aderira, de principio receosa e acagaçada, mas depois ruidosa e álacre de alegria...
domingo, 25 de janeiro de 2009
Sismo na Madrugada de Humberto Moura por Victor Rui Dores
Com apetecível apresentação gráfica, Sismo na Madrugada (edição de autor, 2003) é um belíssimo romance da autoria de Humberto Moura, que no conto e na novela, e através dos Livros Na Diáspora Do Tempo (edição da Câmara Municipal da Horta, 1996) e Errância de Pedra e de Sal (edição de autor, 1998), já havia dado boa conta de si como escritor de apreciáveis recursos.
Deste autor micaelense radicado desde 1960 na ilha do Faial, o mínimo que para já se poderá dizer é que escreve com talento, honestidade e exigência estética, sendo possuidor de uma capacidade descritiva, pois que o romance em apreço flui e ecoa ao longo de 361 páginas, em vozes e escritas de grande fôlego narrativo.
Romance de um tempo e de um espaço (a acção parte da ilha para o mundo e decorre a partir dos anos 30 até à ocorrência do sismo de 9 de Julho de 1998), Sismo na Madrugada é também um romance de uma personagem, à volta da qual circulam muitas personagens. Todas elas representam um percurso individual de auto(descoberta e aprendizagem da vida e do mundo.
Precisamente porque a ilha é um espaço aberto ao mundo, o romance dá conta da história de um homem, de seu nome Alberto Quevedo Silveira da Neiva Brum da Terra, que, aos 17 anos de idade, deixa a sua ilha do Faial e parte para a grande viagem da vida. A narrativa estabelece uma bem conseguida (e dialéctica) relação entre a ilha e o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou um símbolo do mundo. A ilha, que repele e atrai, é no fundo, um eterno retorno, pois que representa a memória primordial e afectiva e simboliza a ânsia de ficar e/ou de partir.
Por isso há em Quevedo, um desejo de viagem, uma ânsia de largar amarras e de ultrapassar horizontes. E, a propósito, convirá deixar aqui um primeiro aviso à navegação: a capa e a contracapa desta obra, com feliz concepção e digitalização de Paulo Moura, remetem-nos para o sismo de 9 de Julho. Porém, este não é um livro sobre a história de um sismo, mas sobre o destino e a errância de um homem que transporta uma ilha e uma mundividência.
Sismo na Madrugada é pois, uma viagem e é como viagem permanente que toda a obra se articula. Uma viagem de muitas partidas e de poucos regressos. Porque a viagem é a busca de uma identidade e, por isso mesmo, de auto-conhecimento e de auto-revelação. O romance arranca com a viagem de Quevedo, a bordo do navio “Lima” através da qual o narrador traça o perfil das cidades da Horta, Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Lisboa, captando nelas todo o imaginário e toda a geografia afectiva, social e histórica. Mas essa viagem não se circunscreve ao simples registo de anotações de circunstância física e material, mas aos poucos vai-se transformando na peregrinação interior de Quevedo, num quadro em que se expõem as marcas do seu próprio dilaceramento íntimo, ele que sendo um homem estranho, misterioso e que, conhecendo mais tarde, a riqueza e a glória, viverá confrontado com perdas, danos e perdições.
Através desta viagem, o narrador encontrou um pretexto (ou um pré-texto) para ficcionar a partir de acontecimentos reais e incontornáveis da História europeia e mundial do século XX. E é através do olhar de Quevedo, jornalista de profissão, que nos são dadas descrições impressionantes sobre a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. È Quevedo que, na qualidade de repórter de guerra e com apenas 21 anos de idade, (d)escreve esses dois conflitos armados, dando vivo testemunho de horrores, perplexidades, inquietações, vicissitudes e dramas. Mas é Humberto Moura que, escondendo-se atrás do narrador, denuncia a barbárie e a crueldade da guerra e faz um apelo à solidariedade universal, à concórdia e à esperança. Porque a literatura é isso mesmo: um espaço de transfiguração e questionamento da realidade. E é aliás, muito bem conseguida, neste romance, a articulação texto literário e documento histórico; memória e facto; realidade e símbolo. Acima de tudo, este é um livro sobre a condição humana, as feridas da alma e a memória dos tempos.
Sismo na Madrugada é também um romance de encontros e reencontros, partidas e chegadas, sonhos e pesadelos, afectos e perdições, lonjura e saudade, distância e ausência, vida e morte, no registo mais sentido de uma escrita pessoalíssima e profundamente humana.
Vejamos agora como tudo isto se articula, lançando um olhar ao percurso de Quevedo e à vasta galeria de personagens que atravessam o romance – gente de grande dimensão humana e fundura psicológica. Porque falar de Humberto Moura é, ainda e sempre, falar de minuciosa observação do humano.
Em pleno palco de guerra, Quevedo instala-se em Paris, vive in loco, a guerra e dela vai dando notícias através de um Diário que escreve (e que ocupa todo o capítulo XVIII do romance). Ferido com um estilhaço numa perna, vai para Londres e em Saint Mary’s Hospital recebe tratamento. Aí reencontra Harriet a inglesinha da Companhia dos Cabos Telegráficos Submarinos, loira e de olhos azuis, que na Horta, fora o grande amor da sua infância, e que é agora estudante de Medicina…Numa cidade sitiada, cercada e ameaçada, Quevedo e Harriet sobrevivem a um quotidiano incerto e entregam-se a um intenso envolvimento amoroso. Harriet alimenta sonhos e traça projectos. O destino é-lhe porém adverso: já médica, é vítima de um bombardeamento efectuado por caças alemães sobre Londres, avindo a morrer sob os escombros de próprio hospital. Esta morte possui tamanha carga simbólica, porque é bem um grito de revolta pelo absurdo da guerra.
Entretanto Quevedo escreve para os grandes jornais britânicos “Daily Mail” e “Chronicle”, bem como para os grandes jornais americanos. Faz amizade com Spencer, também jornalista e, durante a guerra, piloto da Royal Air Force; priva de perto com Mr. Winston, tio de Spencer, político e analista de questões ligadas ao espaço europeu, e Sir Cavendish, director do Jornal “Daily Mail”, onde é colaborador. A guerra leva-o para África, onde durante algum tempo se lhe perde o rasto.
Sem nunca conseguir esquecer Harriet, Quevedo não resiste aos encantos de Mirita, cabo-verdiana bela e apetecível, polarização do desejo e com quem ele partilha iniciáticas navegações eróticas, (d)escritas com mestria narrativa (são de antologia as páginas 88, 89, 90 e 91). Mais tarde, Mirita distinguir-se-á como professora catedrática, ganhando prestigio dentro e fora de Portugal.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Quevedo fixa-se nos Estados Unidos da América, tornando-se jornalista de referência do “New York Times”, ele que começara a sua carreira jornalística como revisor do jornal “O Telégrafo”. Escreve dois livros que lhe trazem fama e reconhecimento internacional: “Why?” e “Proscritos”. Só regressará aos Açores trinta anos mais tarde, por morte de sua mãe, D. Rosalina, com quem manteve ao longo dos anos abundante correspondência. Quando aquela, lhe dá conta, por telegrama, que o marido, dr. Terra morreu, Quevedo não reage nem se emociona, já que a relação que mantinha com o pai era distante e poucos afectos. Já o mesmo não acontece quando recebe a notícia da morte da mãe.
Na cidade da Horta, Quevedo reencontra Aníbal, seu amigo colega, graciosense carismático e dono da pensão e do restaurante “Graciosa”.
Quevedo é pois, um homem da errância e da peregrinação; é um homem em dispersão que, na viagem, busca caminhos de felicidade e de sonho. O seu amigo Quental é precisamente o oposto, pois que após vários anos de vivência lisboeta e obtido o “canudo” (fruto da ânsia de prestigio social e familiar que lhe fora incutido pelos pais), regressa à ilha e aí arrasta uma penosa existência de jurista. Vive em Ponta Delgada, “uma cidadezinha onde imperava o obsoletismo caduco e a mania das famílias e dos brasões”(pag. 159). É um falhado, um desafortunado e um vencido na vida. Quevedo é cosmopolita e é cidadão do mundo e luta por um mundo melhor. Quental é regionalista, resigna-se a um quotidiano pardacento e confronta-se com a “pasmaceira” dos estreitos limites da ilha de São Miguel; Quevedo vive um tempo universal; Quental é homem insulado e é uma figura trágica: desencantado com a vida, e cumprindo simbolicamente um destino familiar, suicida-se em Ponta Delgada, deixando viúva Roxana Dent (médica faialense e que fora musa inspiradora na adolescência de ambos) e órfão o filho Alberto, que mais tarde virá a conhecer os horrores da Guerra Colonial portuguesa.
Quevedo regressa à Europa e revisita terras de Espanha. Em Ponte Vedra, saberá da notícia da morte de D. Dolores, espanhola que outrora lhe dera abrigo e guarida num dia em que fora assaltado por dois marroquinos e salvo pelo cão “São Telmo”. A criada Maria cumpre o desejo de Dolores ao entregar a Quevedo a chave de casa que lhe fora deixada em testamento. Fixa temporariamente residência naquela localidade, recorda o seu amigo de outros tempos, o “Rola”, pescador e anarquista, faz amizade com Cambado e Bexiga, velhos pescadores espanhóis, e torna-se íntimo do jovem Paco.
Entretanto ocorre o 25 de Abril de 1974, Ao passar por Lisboa, Quevedo apercebe-se que muita coisa mudou. Já não existem os jornais “O Século” e “A República” (para onde colaborara) e é-nos dada uma curiosa reflexão sobre “a esquerda iniciática e exuberante”.
Quevedo recorda os amigos dos tempos de Lisboa: o Goulart, um misto de D. Quixote e de D. Sebastião, é picaroto, republicano, agitador, anarco-sindicalista, tipógrafo que, em tempo de opressão e intolerância, luta pelos valores da democracia, da liberdade e da justiça social, vindo e morrer vítima da Guerra Civil de Espanha; o Santinho, companheiro de Goulart, um “homenzinho de Moura, toda a sua vida tipógrafo, giboso e bexiguento, que vivia envolvido numa cábula de silêncio” (p. 96); Juventino, graciosense, que depois de ter transitado pelo seminário de Angra. Vai estudar para Lisboa; terminada a licenciatura em Românicas, regressará aos Açores onde exerce o professorado, tornando-se mais tarde, reitor do Liceu de Angra do Heroísmo; o “Não me Lixem”, carismático professor da faculdade de Direito de Lisboa; O Ormonde, terceirense, jornalista; o Rosinha, director do jornal “o Século”; Victorino, escritor e poeta; Natália, poetisa; o Jardim, madeirense, criado do café Palladium; e o Gambôa, figura de recorte queirosiano, personalidade do “bas-fond” lisboeta, ser desprezível, empertigado e arrogante…
Este romance é também uma viagem por culturas e saberes. Aqui se convocam referências como Cristo, Sócrates, Platão, Rosseau, Lock, Engels, Nietzcge, Ravaisson, Lachalier, Guyau, Assis, Tolstoi, Proudhon, Voltaire, Lenine, Marx, Schweitzer, Cook, Darwin, Guy de Maupassant, Kant, Flaubert, Balzac, Hegel, Mahomed, Sain-Exupery, entre outros. E aqui se fala de Camões, Bocage, Garrett, Júlio Diniz, António Nobre, Camilo Castelo Branco, Pe. António Vieira, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, etc. Aqui se evoca Aristides Sousa Mendes, Humberto Delgado e muitas outras personalidades e acontecimentos ligados à História do século XX.
Sismo na Madrugada é ainda lugar de confronto, de denúncia de verdades ilusórias e de renúncia às máscaras de um quotidiano alienante. Porque há este dado inapelável: Portugal chegou tarde à História…E quase todas as personagens deste romance sofrem as consequências disso mesmo. Daí os olhares (críticos vagamente satíricos) que o narrador lança sobre um tempo português fascizante e sobre as mitologias do nosso passado recente. Aqui se questiona o “Portugal rústico, rural, triste e teimosamente pobre, com 4 milhões de analfabetos, um recanto sossegado da Europa, mas muito longe dela, dividida internamente em dois” e se interroga as duas ditaduras ibéricas, a propósito da mundividência de Quevedo, que outrora entrevistara generais (Franco, Mola, Durruti, Montgomery. MacArthur e Einsenhour), escrevera para os melhores jornais do mundo, fizera televisão e se relacionara com pessoas famosas, como Churchill, Truman, Kennedy, Gandhi, Picasso, John dos Passos, Steinbeck, Malraux, entre outros.
Homem de todos os lugares e de todas as geografias, Quevedo para alèm da Europa calcorreara terras de África, Ásia, Oceânia, percorrera as Filipinas, conhecera a fama, a glória, dando-se mesmo ao luxo de recusar medalhas, uma das mãos do próprio Jorge VI.
Ao regressar ao Faial, Quevedo é, porém, um homem pobre, velho, desgastado e despojado de bens materiais. Ele que possuíra imensa riqueza. É agora conhecido como “o homem da boina preta”. Ele que teve tudo, deu tudo aos outros, numa atitude de partilha e solidariedade, com o franciscanismo a rondar por perto.
Este regresso de Quevedo à sua ilha servirá para que o narrador teça uma muito bem conseguida reflexão sobre o passado e o presente da Horta, intrometendo-se na narração: capta não só o imaginário daquela cidade, como também (d)escreve, de forma admirável, as suas gentes e os seus lugares.
As ilhas que Quevedo deixara já não são as mesmas que vem agora encontrar. Foram muitas as mudanças que nelas entretanto se operaram. Por exemplo, o Dia de S Vapor deu lugar ao Dia de S. Avião. E os navios “Lima” e “Carvalho Araújo” foram substituídos pelos grandes aviões da Douglas e da Boeing DC-4 (Skymasters) e Super Constellations.
Na cidade da Horta, Quevedo instala-se numa velha casa sita à Rua do Arco (“Casa do Portão Verde”, junto ao solar dos Arriagas) e vive sem grandes meios de subsistência, sendo “homem de encantos perdidos e sonhos desfeitos” (p. 260). Não possui familiares e a sociedade hortense considera-o esquisito, estranho, misterioso. Tem por companhia, um gato que ele salvou e a que pôs o nome de “Sócrates” (o capítulo XVIII é-lhe inteiramente dedicado). Junto da casa existe um velho dragoeiro a que deu o nome de Anaxágoras. O gato, velho como o dono, é uma personagem do livro, pois que é tratado (por Quevedo e pelo narrador) como se de gente se tratasse. Velho é também o dragoeiro que, um dia, desata a “falar” com Quevedo, num discurso de grande alcance ecológico e humanitário e num apetecível registo de efabulação do fantástico, um dos momentos altos deste romance (cf. Capítulo XIX)
Vivendo o peso da solidão da ilha, Quevedo integra-se na tertúlia do Largo da Matriz, a funcionar na “Drogaria Hortense” e frequentada, entre outras, por três personagens de grande recorte humano e de diferentes posicionamentos culturais e ideológicos: João Maria, também conhecido por Dr. João da Drogaria, ou Dr. “Sabichão”, proprietário daquele estabelecimento (misto de farmácia e drogaria), é solteiro e solitário. Os diálogos ali mantidos funcionam como pretexto para se comentar os mais variados aspectos relacionados com a sociedade faialense; Sampaio, amigo de Quevedo dos tempos de Liceu e de Lisboa, envolveu-se, quando era alferes, em intentonas para derrubar Salazar, tendo sido expulso do Exército, ficando conhecido por “tenente”. É um homem de cultura e de ciência, sendo contra a ordem e o poder estabelecido, pois nutre um ódio visceral a tudo o que seja regimes, chefes, políticos e políticas. Possui apurado sentido crítico e de humor e é através dele que são lançados olhares (críticos e mordazes) à cidade da Horta e às suas gentes. Com a instauração da democracia em Portugal, é reintegrado no Exército com a patente de capitão, sendo então tratado por capitão Sampaio. Anos depois morrerá com um ambíguo sorriso nos lábios – porque foi sempre um homem que, durante toda a vida, desafiou toda e qualquer forma de poder; José Nabais, o mais velho da tertúlia, funciona como contraponto ao capitão Sampaio, pois que é homem conservador e vagamente monárquico. Viúvo, “dado a males e enxaquecas” possuidor de sentido crítico e de um humor muito peculiar, é amigo de longa data de Quevedo. Começou por ser cabografista das Companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos. Depois obteve emprego nos CTT, aí trabalhando até à reforma.
Como já se disse, Sismo na Madrugada é um romance de encontros e reencontros, de chegadas e apartamentos. Tal situação estará patente até ao final do livro. Neste contexto, surge-nos uma outra personagem: Jean Jaques Feuillé, que aos 73 anos de idade a bordo do seu barco “L’Espoir” chega à cidade da Horta como vencedor da Regata das Hortênsias. Fora ele que, pouco antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, dera guarida a Quevedo na sua casa em Paris. Jornalista aposentado, Feuillé fora também repórter de guerra, escrevendo para o “Le Monde”.
Após longos anos sem se ver, Quevedo e Feuillé reencontram-se no Café “Peter”, onde conversam longamente sobre as suas vidas e o desconcerto do mundo. E também da solidão e da velhice das suas vidas. São afinal dois heróis vencidos.
“Olharam os copos já gastos de gin, e ficaram-nos trespassando demoradamente, através dos cubos de gelo, que haviam ficado a secar e a gelar as “guelras” lá mais para o fundo, num extinguir lento e sem glória, quase como aquele que acompanhava agora as suas vidas.
E fizeram da mudez, uma vez mais, um grito de silenciosa solidariedade na revolta. Afinal eles eram homens solitários, infelizes, avançados na idade…”, pág. 319.
Atente-se nesta bem conseguida imagem do gelo que se derrete e da vida que se esvai. Feuillé convida o amigo a viajar com ele, mas Quevedo recusa porque não quer deixar o velho gato “Sócrates” atrás, achando que se levasse o animal consigo, este não sobreviveria à longa viagem.
Feuillé parte sozinho. Durante algum tempo, manterá correspondência com Quevedo. Até que um dia surge a notícia trágica: o barco de Feuillé é encontrado abandonado…O Skipper morre no mar, não conseguindo passar o Cabo Horn…
Quevedo vive a mágoa, a saudade, a solidão, o “pesadume” e a tristeza que lhe deixam os amigos que vão morrendo: Nabais, Sampaio, Feuillé…Para exorcizar a memória, vai escrevendo nos jornais locais, artigos que fazem algum furor e que vêm assinados com as iniciais “Q.N.” e, por isso mesmo, passa a ser conhecido pela alcunha de “Quebra Nozes”. Ao mesmo tempo vai escrevendo um diário.
Um dia conhece, por mero acaso, uma jornalista da BBC que, fazendo reportagem televisiva na Horta durante a Semana do Mar, busca também as suas raízes familiares. Chama-se Harriet Simpson, é neta de Harriet, filha de Richard O’Neil, director da Companhia Inglesa, a Eastern Telegraph Coy, como já foi referido, foi ela o grande amor da juventude de Quevedo, e que mais tarde, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, morre vítima de raids aéreos quando exercia medicina. A jornalista anda em busca do avô, dá informações sobre o mesmo e pergunta se Quevedo conhece tal pessoa. Este diz que não, ficando de um momento para o outro, a saber que está perante a neta…Apesar de negar tudo, Quevedo chora e Harriet Simpson apercebe-se, sem o dizer que aquele é o avô que procura. Quando fica só Quevedo fica feliz por saber que, afinal deixou descendência e, assim, sente-se um homem prolongado no tempo e no espaço.
Harriet Simpson marca um novo encontro com Quevedo. Mas este não chegará a acontecer porque entretanto ocorre o sismo de 9 de Julho de 1998 e Quevedo fica soterrado sob os escombros da sua velha casa, juntamente com o velho gato “Sócrates” que ali mesmo morre, naquele que constitui um dos momentos de maior sentimento e literariamente mais ricos do romance. Quevedo é retirado e transportado pelos bombeiros para o Hospital da Horta, onde acabará por falecer. Tinha 79 anos de idade.
Antes de expirar, Quevedo panteísta convicto, questiona os desígnios da natureza e revisita em “flash back”, o filme da sua vida – o que empresta a este romance potencialidades e possibilidades cinematográficas. O narrador traça um bem conseguido paralelismo entre os destroços do sismo e a lembrança dos destroços causados pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. À memória do moribundo Quevedo chegam-lhe ecos da canção “ Lilly Marlen” e, pela última vez, recorda Harriet, também ela sucumbida sob os escombros, numa longínqua madrugada de 1942…
O dragoeiro “Anaxágoras” que, durante séculos, desafiara o tempo e resistira de pé a tempestades e ciclones, acaba também por tombar sob os efeitos do sismo, sendo cortado aos bocados, para trabalhos de obstrução e resgate.
Sismo na Madrugada termina com uma descrição absolutamente notável, sobre o sismo de 9 de Julho de 1998, seus efeitos e nefastas consequências, mas também sobre todos os sismos da vida.
Harriet encontrará Quevedo já cadáver na Urgência do Hospital da Horta e, perante o espanto de João Maria e do Dr. Silva, (jovem médico de serviço naquela fatídica madrugada), diz ser neta do falecido, sem dar grandes explicações, limitando-se a um “It’s a long, a very long story”.
O romance tem um final em aberto, porque João Maria vem recordar que há um Diário que Quevedo escrevia…Esse Diário não é encontrado, mas estará nele a chave para se compreender a essência e o enigma de um homem que durante uma vida inteira, viveu dividido entre o amor à terra e a experiência do mundo.
Sismo na Madrugada é isso mesmo: uma sentida e sincera declaração de amor e de esperança às ilhas, ao mundo, às pessoas, à Natureza, e aos animais, sendo que estes, nos três livros de Humberto Moura, são”humanizados” e ganham foros de cidadania e de heroísmo, pois estão ali não para servir de décor, mas para desempenhar papéis de algum protagonismo.
Com uma eficaz e eficiente fluência narrativa, o romance está bem escrito e bem carpinteirado. Saúde-se a imaginação criadora de Humberto Moura.
E saúde-se este Sismo na Madrugada, que lançando olhares sobre o século XX, olha e humanidade e nos olha de frente – para nos falar do destino da vida humana no teatro do mundo.
Um livro que por isso mesmo, se lê com emoção e comoção.
Deste autor micaelense radicado desde 1960 na ilha do Faial, o mínimo que para já se poderá dizer é que escreve com talento, honestidade e exigência estética, sendo possuidor de uma capacidade descritiva, pois que o romance em apreço flui e ecoa ao longo de 361 páginas, em vozes e escritas de grande fôlego narrativo.
Romance de um tempo e de um espaço (a acção parte da ilha para o mundo e decorre a partir dos anos 30 até à ocorrência do sismo de 9 de Julho de 1998), Sismo na Madrugada é também um romance de uma personagem, à volta da qual circulam muitas personagens. Todas elas representam um percurso individual de auto(descoberta e aprendizagem da vida e do mundo.
Precisamente porque a ilha é um espaço aberto ao mundo, o romance dá conta da história de um homem, de seu nome Alberto Quevedo Silveira da Neiva Brum da Terra, que, aos 17 anos de idade, deixa a sua ilha do Faial e parte para a grande viagem da vida. A narrativa estabelece uma bem conseguida (e dialéctica) relação entre a ilha e o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou um símbolo do mundo. A ilha, que repele e atrai, é no fundo, um eterno retorno, pois que representa a memória primordial e afectiva e simboliza a ânsia de ficar e/ou de partir.
Por isso há em Quevedo, um desejo de viagem, uma ânsia de largar amarras e de ultrapassar horizontes. E, a propósito, convirá deixar aqui um primeiro aviso à navegação: a capa e a contracapa desta obra, com feliz concepção e digitalização de Paulo Moura, remetem-nos para o sismo de 9 de Julho. Porém, este não é um livro sobre a história de um sismo, mas sobre o destino e a errância de um homem que transporta uma ilha e uma mundividência.
Sismo na Madrugada é pois, uma viagem e é como viagem permanente que toda a obra se articula. Uma viagem de muitas partidas e de poucos regressos. Porque a viagem é a busca de uma identidade e, por isso mesmo, de auto-conhecimento e de auto-revelação. O romance arranca com a viagem de Quevedo, a bordo do navio “Lima” através da qual o narrador traça o perfil das cidades da Horta, Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Lisboa, captando nelas todo o imaginário e toda a geografia afectiva, social e histórica. Mas essa viagem não se circunscreve ao simples registo de anotações de circunstância física e material, mas aos poucos vai-se transformando na peregrinação interior de Quevedo, num quadro em que se expõem as marcas do seu próprio dilaceramento íntimo, ele que sendo um homem estranho, misterioso e que, conhecendo mais tarde, a riqueza e a glória, viverá confrontado com perdas, danos e perdições.
Através desta viagem, o narrador encontrou um pretexto (ou um pré-texto) para ficcionar a partir de acontecimentos reais e incontornáveis da História europeia e mundial do século XX. E é através do olhar de Quevedo, jornalista de profissão, que nos são dadas descrições impressionantes sobre a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. È Quevedo que, na qualidade de repórter de guerra e com apenas 21 anos de idade, (d)escreve esses dois conflitos armados, dando vivo testemunho de horrores, perplexidades, inquietações, vicissitudes e dramas. Mas é Humberto Moura que, escondendo-se atrás do narrador, denuncia a barbárie e a crueldade da guerra e faz um apelo à solidariedade universal, à concórdia e à esperança. Porque a literatura é isso mesmo: um espaço de transfiguração e questionamento da realidade. E é aliás, muito bem conseguida, neste romance, a articulação texto literário e documento histórico; memória e facto; realidade e símbolo. Acima de tudo, este é um livro sobre a condição humana, as feridas da alma e a memória dos tempos.
Sismo na Madrugada é também um romance de encontros e reencontros, partidas e chegadas, sonhos e pesadelos, afectos e perdições, lonjura e saudade, distância e ausência, vida e morte, no registo mais sentido de uma escrita pessoalíssima e profundamente humana.
Vejamos agora como tudo isto se articula, lançando um olhar ao percurso de Quevedo e à vasta galeria de personagens que atravessam o romance – gente de grande dimensão humana e fundura psicológica. Porque falar de Humberto Moura é, ainda e sempre, falar de minuciosa observação do humano.
Em pleno palco de guerra, Quevedo instala-se em Paris, vive in loco, a guerra e dela vai dando notícias através de um Diário que escreve (e que ocupa todo o capítulo XVIII do romance). Ferido com um estilhaço numa perna, vai para Londres e em Saint Mary’s Hospital recebe tratamento. Aí reencontra Harriet a inglesinha da Companhia dos Cabos Telegráficos Submarinos, loira e de olhos azuis, que na Horta, fora o grande amor da sua infância, e que é agora estudante de Medicina…Numa cidade sitiada, cercada e ameaçada, Quevedo e Harriet sobrevivem a um quotidiano incerto e entregam-se a um intenso envolvimento amoroso. Harriet alimenta sonhos e traça projectos. O destino é-lhe porém adverso: já médica, é vítima de um bombardeamento efectuado por caças alemães sobre Londres, avindo a morrer sob os escombros de próprio hospital. Esta morte possui tamanha carga simbólica, porque é bem um grito de revolta pelo absurdo da guerra.
Entretanto Quevedo escreve para os grandes jornais britânicos “Daily Mail” e “Chronicle”, bem como para os grandes jornais americanos. Faz amizade com Spencer, também jornalista e, durante a guerra, piloto da Royal Air Force; priva de perto com Mr. Winston, tio de Spencer, político e analista de questões ligadas ao espaço europeu, e Sir Cavendish, director do Jornal “Daily Mail”, onde é colaborador. A guerra leva-o para África, onde durante algum tempo se lhe perde o rasto.
Sem nunca conseguir esquecer Harriet, Quevedo não resiste aos encantos de Mirita, cabo-verdiana bela e apetecível, polarização do desejo e com quem ele partilha iniciáticas navegações eróticas, (d)escritas com mestria narrativa (são de antologia as páginas 88, 89, 90 e 91). Mais tarde, Mirita distinguir-se-á como professora catedrática, ganhando prestigio dentro e fora de Portugal.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Quevedo fixa-se nos Estados Unidos da América, tornando-se jornalista de referência do “New York Times”, ele que começara a sua carreira jornalística como revisor do jornal “O Telégrafo”. Escreve dois livros que lhe trazem fama e reconhecimento internacional: “Why?” e “Proscritos”. Só regressará aos Açores trinta anos mais tarde, por morte de sua mãe, D. Rosalina, com quem manteve ao longo dos anos abundante correspondência. Quando aquela, lhe dá conta, por telegrama, que o marido, dr. Terra morreu, Quevedo não reage nem se emociona, já que a relação que mantinha com o pai era distante e poucos afectos. Já o mesmo não acontece quando recebe a notícia da morte da mãe.
Na cidade da Horta, Quevedo reencontra Aníbal, seu amigo colega, graciosense carismático e dono da pensão e do restaurante “Graciosa”.
Quevedo é pois, um homem da errância e da peregrinação; é um homem em dispersão que, na viagem, busca caminhos de felicidade e de sonho. O seu amigo Quental é precisamente o oposto, pois que após vários anos de vivência lisboeta e obtido o “canudo” (fruto da ânsia de prestigio social e familiar que lhe fora incutido pelos pais), regressa à ilha e aí arrasta uma penosa existência de jurista. Vive em Ponta Delgada, “uma cidadezinha onde imperava o obsoletismo caduco e a mania das famílias e dos brasões”(pag. 159). É um falhado, um desafortunado e um vencido na vida. Quevedo é cosmopolita e é cidadão do mundo e luta por um mundo melhor. Quental é regionalista, resigna-se a um quotidiano pardacento e confronta-se com a “pasmaceira” dos estreitos limites da ilha de São Miguel; Quevedo vive um tempo universal; Quental é homem insulado e é uma figura trágica: desencantado com a vida, e cumprindo simbolicamente um destino familiar, suicida-se em Ponta Delgada, deixando viúva Roxana Dent (médica faialense e que fora musa inspiradora na adolescência de ambos) e órfão o filho Alberto, que mais tarde virá a conhecer os horrores da Guerra Colonial portuguesa.
Quevedo regressa à Europa e revisita terras de Espanha. Em Ponte Vedra, saberá da notícia da morte de D. Dolores, espanhola que outrora lhe dera abrigo e guarida num dia em que fora assaltado por dois marroquinos e salvo pelo cão “São Telmo”. A criada Maria cumpre o desejo de Dolores ao entregar a Quevedo a chave de casa que lhe fora deixada em testamento. Fixa temporariamente residência naquela localidade, recorda o seu amigo de outros tempos, o “Rola”, pescador e anarquista, faz amizade com Cambado e Bexiga, velhos pescadores espanhóis, e torna-se íntimo do jovem Paco.
Entretanto ocorre o 25 de Abril de 1974, Ao passar por Lisboa, Quevedo apercebe-se que muita coisa mudou. Já não existem os jornais “O Século” e “A República” (para onde colaborara) e é-nos dada uma curiosa reflexão sobre “a esquerda iniciática e exuberante”.
Quevedo recorda os amigos dos tempos de Lisboa: o Goulart, um misto de D. Quixote e de D. Sebastião, é picaroto, republicano, agitador, anarco-sindicalista, tipógrafo que, em tempo de opressão e intolerância, luta pelos valores da democracia, da liberdade e da justiça social, vindo e morrer vítima da Guerra Civil de Espanha; o Santinho, companheiro de Goulart, um “homenzinho de Moura, toda a sua vida tipógrafo, giboso e bexiguento, que vivia envolvido numa cábula de silêncio” (p. 96); Juventino, graciosense, que depois de ter transitado pelo seminário de Angra. Vai estudar para Lisboa; terminada a licenciatura em Românicas, regressará aos Açores onde exerce o professorado, tornando-se mais tarde, reitor do Liceu de Angra do Heroísmo; o “Não me Lixem”, carismático professor da faculdade de Direito de Lisboa; O Ormonde, terceirense, jornalista; o Rosinha, director do jornal “o Século”; Victorino, escritor e poeta; Natália, poetisa; o Jardim, madeirense, criado do café Palladium; e o Gambôa, figura de recorte queirosiano, personalidade do “bas-fond” lisboeta, ser desprezível, empertigado e arrogante…
Este romance é também uma viagem por culturas e saberes. Aqui se convocam referências como Cristo, Sócrates, Platão, Rosseau, Lock, Engels, Nietzcge, Ravaisson, Lachalier, Guyau, Assis, Tolstoi, Proudhon, Voltaire, Lenine, Marx, Schweitzer, Cook, Darwin, Guy de Maupassant, Kant, Flaubert, Balzac, Hegel, Mahomed, Sain-Exupery, entre outros. E aqui se fala de Camões, Bocage, Garrett, Júlio Diniz, António Nobre, Camilo Castelo Branco, Pe. António Vieira, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, etc. Aqui se evoca Aristides Sousa Mendes, Humberto Delgado e muitas outras personalidades e acontecimentos ligados à História do século XX.
Sismo na Madrugada é ainda lugar de confronto, de denúncia de verdades ilusórias e de renúncia às máscaras de um quotidiano alienante. Porque há este dado inapelável: Portugal chegou tarde à História…E quase todas as personagens deste romance sofrem as consequências disso mesmo. Daí os olhares (críticos vagamente satíricos) que o narrador lança sobre um tempo português fascizante e sobre as mitologias do nosso passado recente. Aqui se questiona o “Portugal rústico, rural, triste e teimosamente pobre, com 4 milhões de analfabetos, um recanto sossegado da Europa, mas muito longe dela, dividida internamente em dois” e se interroga as duas ditaduras ibéricas, a propósito da mundividência de Quevedo, que outrora entrevistara generais (Franco, Mola, Durruti, Montgomery. MacArthur e Einsenhour), escrevera para os melhores jornais do mundo, fizera televisão e se relacionara com pessoas famosas, como Churchill, Truman, Kennedy, Gandhi, Picasso, John dos Passos, Steinbeck, Malraux, entre outros.
Homem de todos os lugares e de todas as geografias, Quevedo para alèm da Europa calcorreara terras de África, Ásia, Oceânia, percorrera as Filipinas, conhecera a fama, a glória, dando-se mesmo ao luxo de recusar medalhas, uma das mãos do próprio Jorge VI.
Ao regressar ao Faial, Quevedo é, porém, um homem pobre, velho, desgastado e despojado de bens materiais. Ele que possuíra imensa riqueza. É agora conhecido como “o homem da boina preta”. Ele que teve tudo, deu tudo aos outros, numa atitude de partilha e solidariedade, com o franciscanismo a rondar por perto.
Este regresso de Quevedo à sua ilha servirá para que o narrador teça uma muito bem conseguida reflexão sobre o passado e o presente da Horta, intrometendo-se na narração: capta não só o imaginário daquela cidade, como também (d)escreve, de forma admirável, as suas gentes e os seus lugares.
As ilhas que Quevedo deixara já não são as mesmas que vem agora encontrar. Foram muitas as mudanças que nelas entretanto se operaram. Por exemplo, o Dia de S Vapor deu lugar ao Dia de S. Avião. E os navios “Lima” e “Carvalho Araújo” foram substituídos pelos grandes aviões da Douglas e da Boeing DC-4 (Skymasters) e Super Constellations.
Na cidade da Horta, Quevedo instala-se numa velha casa sita à Rua do Arco (“Casa do Portão Verde”, junto ao solar dos Arriagas) e vive sem grandes meios de subsistência, sendo “homem de encantos perdidos e sonhos desfeitos” (p. 260). Não possui familiares e a sociedade hortense considera-o esquisito, estranho, misterioso. Tem por companhia, um gato que ele salvou e a que pôs o nome de “Sócrates” (o capítulo XVIII é-lhe inteiramente dedicado). Junto da casa existe um velho dragoeiro a que deu o nome de Anaxágoras. O gato, velho como o dono, é uma personagem do livro, pois que é tratado (por Quevedo e pelo narrador) como se de gente se tratasse. Velho é também o dragoeiro que, um dia, desata a “falar” com Quevedo, num discurso de grande alcance ecológico e humanitário e num apetecível registo de efabulação do fantástico, um dos momentos altos deste romance (cf. Capítulo XIX)
Vivendo o peso da solidão da ilha, Quevedo integra-se na tertúlia do Largo da Matriz, a funcionar na “Drogaria Hortense” e frequentada, entre outras, por três personagens de grande recorte humano e de diferentes posicionamentos culturais e ideológicos: João Maria, também conhecido por Dr. João da Drogaria, ou Dr. “Sabichão”, proprietário daquele estabelecimento (misto de farmácia e drogaria), é solteiro e solitário. Os diálogos ali mantidos funcionam como pretexto para se comentar os mais variados aspectos relacionados com a sociedade faialense; Sampaio, amigo de Quevedo dos tempos de Liceu e de Lisboa, envolveu-se, quando era alferes, em intentonas para derrubar Salazar, tendo sido expulso do Exército, ficando conhecido por “tenente”. É um homem de cultura e de ciência, sendo contra a ordem e o poder estabelecido, pois nutre um ódio visceral a tudo o que seja regimes, chefes, políticos e políticas. Possui apurado sentido crítico e de humor e é através dele que são lançados olhares (críticos e mordazes) à cidade da Horta e às suas gentes. Com a instauração da democracia em Portugal, é reintegrado no Exército com a patente de capitão, sendo então tratado por capitão Sampaio. Anos depois morrerá com um ambíguo sorriso nos lábios – porque foi sempre um homem que, durante toda a vida, desafiou toda e qualquer forma de poder; José Nabais, o mais velho da tertúlia, funciona como contraponto ao capitão Sampaio, pois que é homem conservador e vagamente monárquico. Viúvo, “dado a males e enxaquecas” possuidor de sentido crítico e de um humor muito peculiar, é amigo de longa data de Quevedo. Começou por ser cabografista das Companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos. Depois obteve emprego nos CTT, aí trabalhando até à reforma.
Como já se disse, Sismo na Madrugada é um romance de encontros e reencontros, de chegadas e apartamentos. Tal situação estará patente até ao final do livro. Neste contexto, surge-nos uma outra personagem: Jean Jaques Feuillé, que aos 73 anos de idade a bordo do seu barco “L’Espoir” chega à cidade da Horta como vencedor da Regata das Hortênsias. Fora ele que, pouco antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, dera guarida a Quevedo na sua casa em Paris. Jornalista aposentado, Feuillé fora também repórter de guerra, escrevendo para o “Le Monde”.
Após longos anos sem se ver, Quevedo e Feuillé reencontram-se no Café “Peter”, onde conversam longamente sobre as suas vidas e o desconcerto do mundo. E também da solidão e da velhice das suas vidas. São afinal dois heróis vencidos.
“Olharam os copos já gastos de gin, e ficaram-nos trespassando demoradamente, através dos cubos de gelo, que haviam ficado a secar e a gelar as “guelras” lá mais para o fundo, num extinguir lento e sem glória, quase como aquele que acompanhava agora as suas vidas.
E fizeram da mudez, uma vez mais, um grito de silenciosa solidariedade na revolta. Afinal eles eram homens solitários, infelizes, avançados na idade…”, pág. 319.
Atente-se nesta bem conseguida imagem do gelo que se derrete e da vida que se esvai. Feuillé convida o amigo a viajar com ele, mas Quevedo recusa porque não quer deixar o velho gato “Sócrates” atrás, achando que se levasse o animal consigo, este não sobreviveria à longa viagem.
Feuillé parte sozinho. Durante algum tempo, manterá correspondência com Quevedo. Até que um dia surge a notícia trágica: o barco de Feuillé é encontrado abandonado…O Skipper morre no mar, não conseguindo passar o Cabo Horn…
Quevedo vive a mágoa, a saudade, a solidão, o “pesadume” e a tristeza que lhe deixam os amigos que vão morrendo: Nabais, Sampaio, Feuillé…Para exorcizar a memória, vai escrevendo nos jornais locais, artigos que fazem algum furor e que vêm assinados com as iniciais “Q.N.” e, por isso mesmo, passa a ser conhecido pela alcunha de “Quebra Nozes”. Ao mesmo tempo vai escrevendo um diário.
Um dia conhece, por mero acaso, uma jornalista da BBC que, fazendo reportagem televisiva na Horta durante a Semana do Mar, busca também as suas raízes familiares. Chama-se Harriet Simpson, é neta de Harriet, filha de Richard O’Neil, director da Companhia Inglesa, a Eastern Telegraph Coy, como já foi referido, foi ela o grande amor da juventude de Quevedo, e que mais tarde, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, morre vítima de raids aéreos quando exercia medicina. A jornalista anda em busca do avô, dá informações sobre o mesmo e pergunta se Quevedo conhece tal pessoa. Este diz que não, ficando de um momento para o outro, a saber que está perante a neta…Apesar de negar tudo, Quevedo chora e Harriet Simpson apercebe-se, sem o dizer que aquele é o avô que procura. Quando fica só Quevedo fica feliz por saber que, afinal deixou descendência e, assim, sente-se um homem prolongado no tempo e no espaço.
Harriet Simpson marca um novo encontro com Quevedo. Mas este não chegará a acontecer porque entretanto ocorre o sismo de 9 de Julho de 1998 e Quevedo fica soterrado sob os escombros da sua velha casa, juntamente com o velho gato “Sócrates” que ali mesmo morre, naquele que constitui um dos momentos de maior sentimento e literariamente mais ricos do romance. Quevedo é retirado e transportado pelos bombeiros para o Hospital da Horta, onde acabará por falecer. Tinha 79 anos de idade.
Antes de expirar, Quevedo panteísta convicto, questiona os desígnios da natureza e revisita em “flash back”, o filme da sua vida – o que empresta a este romance potencialidades e possibilidades cinematográficas. O narrador traça um bem conseguido paralelismo entre os destroços do sismo e a lembrança dos destroços causados pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. À memória do moribundo Quevedo chegam-lhe ecos da canção “ Lilly Marlen” e, pela última vez, recorda Harriet, também ela sucumbida sob os escombros, numa longínqua madrugada de 1942…
O dragoeiro “Anaxágoras” que, durante séculos, desafiara o tempo e resistira de pé a tempestades e ciclones, acaba também por tombar sob os efeitos do sismo, sendo cortado aos bocados, para trabalhos de obstrução e resgate.
Sismo na Madrugada termina com uma descrição absolutamente notável, sobre o sismo de 9 de Julho de 1998, seus efeitos e nefastas consequências, mas também sobre todos os sismos da vida.
Harriet encontrará Quevedo já cadáver na Urgência do Hospital da Horta e, perante o espanto de João Maria e do Dr. Silva, (jovem médico de serviço naquela fatídica madrugada), diz ser neta do falecido, sem dar grandes explicações, limitando-se a um “It’s a long, a very long story”.
O romance tem um final em aberto, porque João Maria vem recordar que há um Diário que Quevedo escrevia…Esse Diário não é encontrado, mas estará nele a chave para se compreender a essência e o enigma de um homem que durante uma vida inteira, viveu dividido entre o amor à terra e a experiência do mundo.
Sismo na Madrugada é isso mesmo: uma sentida e sincera declaração de amor e de esperança às ilhas, ao mundo, às pessoas, à Natureza, e aos animais, sendo que estes, nos três livros de Humberto Moura, são”humanizados” e ganham foros de cidadania e de heroísmo, pois estão ali não para servir de décor, mas para desempenhar papéis de algum protagonismo.
Com uma eficaz e eficiente fluência narrativa, o romance está bem escrito e bem carpinteirado. Saúde-se a imaginação criadora de Humberto Moura.
E saúde-se este Sismo na Madrugada, que lançando olhares sobre o século XX, olha e humanidade e nos olha de frente – para nos falar do destino da vida humana no teatro do mundo.
Um livro que por isso mesmo, se lê com emoção e comoção.
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